Não pensei que seria tão difícil.
Difícil e complicado, em vários sentidos.
Começando pela área escolar... vim pro Brasil com o interesse de acabar o secundário (aqui, ensino médio) em 4 meses... que ideia! Acho que fora minha vontade de vir que alimentava essa ideia, mas fosse qual fosse o pensamento, não me parece racional! Aparentemente vou ter que fazer 1 ano e 6 meses, o que significa ficar muito mais tempo do que estava prevendo no Brasil. Felizmente ou não, também tenho o "CEEJA", que consiste em pegar as apostilas e estudar em casa, ir na escola somente para realizar os exames, ou seja, a velocidade em que acabo o secundário depende unicamente de mim, do quão rápido quiser acabar. Confesso que também existe uma terceira opção, que seria comprar o diploma. Seria muito mais fácil, sem dúvidas, porém não me pareceu uma ideia muito honesta. Custaria 400 reais e é um diploma reconhecido pela MEC (Ministério da Educação).
Em questão familiar as coisas são muito mais complicadas de entender, definir e de passar por letras.
Devido ao tempo em que eu e meu pai estivemos separados, não sabemos como conversar um com o outro, porque não nos conhecemos muito bem, não sabemos como falar, como nos comunicar... e isso é tão difícil ! Eu sei que já deveria esperar, afinal foram quase 10 anos longe, mas acho que ainda não tinha pensado que seria assim. Desde que cheguei, pude constatar que infelizmente o tempo levou muita coisa, muitos momentos, e não trará nada de volta. Não adianta vir tentar recuperar algo que não tem como ser recuperado. Tantos momentos que não firam vividos, alegrias e discussões, lágrimas e sorrisos... queria ter vivido cada um desses momentos, TODOS ! Mas não foram vividos... então não existe a intimidade da convivência e não vou ter de volta todos esses anos que a distância e o tempo levaram...
... E isso dói muito !
Na verdade a relação com meu pai, ou a falta dessa relação devido a distancia, deve ser a única mágoa que carrego no coração, e essa dúvida de como seria nossa relação se eu nunca estivesse ido para longe parece que me perseguirá hoje e sempre. Quando minha mãe foi para Portugal, como ja disse, fui para Ipatinga - MG, viver com uns tios... E ha uns dias atras meu pai falou que ir para lá em vez de ficar durante este tempo com ele, foi opção minha e do meu irmão, que ele respeitou. De alguma maneira essas palavras entraram como uma facada. Eu tinha 10 anos! E a versão que sempre ouvira da minha mãe foi que não ficamos com meu pai porque o mesmo só ficaria comigo, e ela queria que eu e meu irmão estivéssemos juntos. Essa versão foi totalmente desmentida que disse que sempre quis ficar conosco. Assim, fico mais uma vez (de TANTAS outras vezes quando era mais nova) entre os dois, sem saber em qual acreditar.
Se minha relação com meu pai se tornar ruim, acho que vou me arrepender de ter vindo, porque preferiria viver com as lembranças de um relacionamento perfeito que tínhamos no passado. Desde que vim pro Brasil, ha 2 semanas percebi também que inconscientemente ou não, por dentro sempre culpei minha mãe por ter me levado para longe, me privado da convivência com meu pai, minha família. Porém, esse é um peso que tirei do peito, porque em contra partida consegui perceber também que ela fez o melhor que pôde, fez o que pensava ser o melhor e provavelmente também não fora fácil pra ela também... O Brasil é um país muito difícil para criar dois filhos, praticamente sozinha. Difícil não só em termos financeiros, mas em questão de violência, de educação, de saúde... O governo não dá a miníma atenção à educação do país, nem à saúde...e nem sequer ao saneamento básico! Ha bairros aqui na "cidade grande" em que as pessoas ainda vivem com água do poço! No Brasil existem mais de 1 milhão de pessoas que vivem em estado de extrema pobreza! O que não é justificável, visto que se trata de um país tão rico. Na minha opinião, é uma falta de civismo, e até mesmo uma falta de respeito para com a população brasileira! O que me dói mais, o que machuca mesmo... é saber que além de ter uma relação distante com meu pai, devido ao tempo que passei longe, também não tenho uma relação tão plausível com minha mãe, pois esses anos vividos com ela foram marcados por discussões, desconfianças e revoltas. Temos ambas personalidades muito fortes, dificuldade em aceitar nossas diferenças, por isso sempre chocamos muito.
Mas confesso, essas duas semanas longe dela só me mostraram o quanto preciso dela, o quanto quero voltar e fazer tudo diferente, melhor!
Porém, preciso estar aqui, aprender a ver a vida sozinha, para me tornar independente, mais madura... No fundo eu já sabia que não seria fácil, mas sei que futuramente isso vai me ajudar até mesmo a ter uma relação muito melhor com minha mãe. Tenho tanta saudade dos meus irmãos, meu padrasto, minhas coisas, meu quarto, minha casa, meus amigos ! Não me sinto em casa aqui.. Talvez porque estou aqui ha pouco tempo... Se essa sensação de estar sozinha, meio perdida, num lugar que não pertenço vai passar ou não, só o tempo vai dizer.
Desde que cheguei tenho saído muito a noite. Baladas, baile funk, álcool (coisa que nunca tinha feito);; Não sei se é para sentir a sensação de liberdade total que nunca tive com minha mãe, ou se para me distrair dessa tristeza da saudade (ou pelos dois?) .. Mas as vezes paro e penso nisso, lembrei que minha intenção era me focar em outros objetivos, me acertar com Deus... e me decepciono comigo mesma.
Sinto falta de ter com quem desabafar aqui! TANTAS vezes quis um ombro para chorar mas me lembrei que todos os meus amigos estão longe, que dessa vez estou por minha conta por enquanto.
...É normal, estou ha pouco tempo aqui para já ter alguém sequer perto de se chamar "amigo".
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